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COLUNA DA GISELLI AVÍNCULA: A inveja da sala de aula

Texto 4

Quando estamos mais sensíveis e abertos para refletir sobre as questões do universo escolar, qualquer diálogo com os atores sociais da educação vira um bom caso para pensar. Na realização das etapas de um concurso público para os quadros do Magistério da Educação Básica, estive em duas situações que chamaram minha atenção e aguçaram meu olhar para o microcosmo privilegiado que é a escola na produção dos saberes da prática pedagógica.

           

Na iminência do horário previsto para o fechamento dos portões, duas candidatas e eu fomos surpreendidas que a entrada que nos reportamos estava proibida para o acesso ao local de prova. Aflitas, pensamos em correr o quarteirão – particularmente correr não seria uma boa ideia para mim, pois estou grávida. Eis que surge um táxi e decidimos rachar essa curta viagem. Equacionada a questão do acesso, tecemos breves comentários, durante o deslocamento até o prédio, sobre o estilo do certame. As etapas de prova de conteúdo específico e de conteúdo pedagógico envolvem o sorteio de pontos para a prova e a disponibilização de uma hora de consulta prévia. Outra surpresa: nenhuma das três professoras candidatas lembrou-se de levar livros, textos e outras publicações para a consulta. Até que uma delas, com tranquilidade, falou: Vamos usar toda a nossa experiência de sala de aula para responder as questões.

 

Na outra etapa deste mesmo concurso, cheguei com antecedência. Busquei um lugar para sentar a fim de esperar abrir os portões, e encontrei um companheiro do período do mestrado que não via há uns quatro anos. Como de praxe, perguntamos um ao outro sobre o que vínhamos fazendo profissionalmente. Ele é orientador educacional, eu sou professora de Sociologia, no momento em função extraclasse. Surgiu um ponto em comum no nosso diálogo: a visualização ampliada do professor extraclasse de refletir as estratégias de ensino e aprendizagem, articulando a bagagem teórica com a prática. Até que ele disse assim: Tenho inveja de vocês [professores regentes] na sala de aula, podem fechar a porta e ficar sozinhos com os alunos.

 

Como apresentei no início deste texto, as conversas informais entre professores podem se transformar num bom caso para pensar. Podemos traduzir os discursos e falas em dados de pesquisa em Educação, mesmo quando, nos encontros casuais, não estejamos especificamente orientados teórica e metodologicamente numa linha de investigação sobre relações entre professores, alunos e processo de escolarização.

 

Nós, professores, por vezes, assoberbados de tarefas, com várias escolas para lecionar, elevado quantitativo de turmas, com enfrentamento do desafio da indisciplina escolar, desânimo com a desvalorização da docência, nos esquecemos ou ainda não reconhecemos nossa dimensão de professores pesquisadores, bem como o cotidiano escolar, em especial a sala de aula, como rico campo de pesquisa e práticas para a experimentação de metodologias de ensino.

 

Lamentavelmente, como esclarece Anita Handfas (2012), no imaginário social acadêmico e escolar persiste uma dicotomia entre ensino e pesquisa, teoria e prática, a dissociação do binômio professor-pesquisador. Há o rebaixamento da identidade profissional docente associada a mero reprodutor dos saberes acadêmicos, que se utiliza da transposição didática dos conteúdos científicos transmitidos pelas instituições universitárias para o nível da educação básica.

 

A prática pedagógica tem uma especificidade e um caráter múltiplo, conforme aponta a autora supracitada: “Os saberes da experiência não se resumem a ação do professor, mas resultam da articulação de diferentes saberes construídos em sua prática pedagógica. São os saberes provenientes dos conteúdos específicos das disciplinas que, juntamente com os saberes curriculares, que são os conteúdos e os métodos que a escola apresenta como os saberes sociais definidos e selecionados e com os saberes profissionais, que são aqueles transmitidos pelas instituições de formação, formam um conjunto articulado de saberes que operados pelo professor, formam uma dinâmica bastante complexa da prática pedagógica (HANDFAS, 2012, p. 30).

 

As vivências recentes proporcionadas pela participação de um concurso para o Magistério do Ensino Básico surpreendentemente sinalizaram para mim os saberes da prática pedagógica como uma das riquezas do universo escolar. Tais saberes são peculiares e extremamente complexos. Diante das situações desafiadoras do cotidiano escolar, o professor é o especialista em mobilizar intervenções e articulações entre os saberes adquiridos e as vivências práticas do chão da escola. O docente privilegiadamente é o ator social a corroborar com um dos objetivos da educação, o processo de escolarização dos alunos. Definitivamente, o exercício do Magistério é para quem está disposto ao dinamismo e a eterna capacidade de reinvenção.

 

Referência:

HANDFAS, Anita. Formação dos professores de sociologia: um debate em aberto. HANDFAS, Anita; MAÇAIRA, Julia Polessa (orgs.). Dilemas e Perspectivas da Sociologia na Educação Básica. Rio de Janeiro: E-Papers, 2012, p. 23-40.

(Sou a Giselli Avíncula, professora de Sociologia, mestra em Ciências Sociais e bacharelanda em Terapia Ocupacional. Hoje, atuo como agente de leitura. Alimento a teimosia da minha alma educadora, acredito na inteligência emocional e na potencialidade dos fazeres humanos para sensibilizar o potencial por conhecer.)

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