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COLUNA DA GISELLI AVÍNCULA: A culpa é do professor

Texto 9

No meu texto anterior, mencionei uma das razões que levam professores a desistirem da carreira do Magistério, no caso, citei a indisciplina escolar. Minha ideia é listar, nos textos subsequentes, os principais problemas/desafios que o professor encontra, bem como algumas soluções assinaladas por pesquisadores em Educação e experiências bem-sucedidas das práticas pedagógicas de pares que lecionam na Educação Básica.

No entanto, muito além de listar os motivos de desistência do Magistério, como desvalorização profissional e salarial, rotina cansativa de planejar, dar aulas e corrigir de avaliações, adoecimento ocupacional, lidar com pessoas que não são especialistas em cargos estratégicos na Educação, a burocracia e a desumanização do sistema de ensino, tem um, em especial, que solapa o bom ânimo e nos sobrecarrega emocionalmente: a culpa.

Nas duas últimas semanas, por conta da idade gestacional avançada, precisei antecipar a licença maternidade, pois o retorno à sala de aula, aos oito meses de gestação, somado à rotina de final de período da faculdade, estava me deixando muito estafada e tensionada. Apesar da decisão prudente e acertada nesta reta final do gestar, vieram preocupações e o sentimento de culpa. Será que a Secretaria de Educação enviará professor? Mais uma vez, as turmas estão sem professor! O que será desse ano letivo e da aprendizagem para esses jovens? Enfim... Questionamentos que não podem ser solucionados pela saída individual. Requerem uma análise cuidadosa e contextualizada. Façamo-la!

A escolarização é uma importante etapa do processo de socialização, na qual a grande maioria dos sujeitos está submetida a frequentar a escola algum momento da sua vida. Nesse sentido, todos têm alguma opinião, achismos e até propostas de método de ensino. Portanto, o professor, mesmo sem se dar conta, é pressionado a atender muitas expectativas diferentes e, por vezes, contraditórias. Eis que a culpabilização dos outros e de si mesmo pode surgir quando as projeções não são atendidas.

As acusações tendem a “colocar nas costas” do professor as falhas do processo de ensino e aprendizagem sem considerar a complexidade da estrutura e do funcionamento do ensino. Por conseguinte, responsabiliza individualmente o docente pelo baixo desempenho acadêmico dos estudantes, pelas altas taxas de reprovação, pelo desinteresse pelo aprendizado, por adotar uma metodologia nada atrativa, e até pela falta de “domínio de turma” diante da recorrente indisciplina escolar.

Algumas gestões de governos municipais e estaduais adotaram, a partir da década de 1990, a implementação de uma política de bonificação, com o intuito de impulsionar a qualidade do ensino da rede pública por meio do cumprimento de metas de desempenho. Inúmeras críticas foram elencadas diante da política meritocrática como estratégia ilusória de valorização do professor e da educação. É fato que esse modelo conduz à responsabilização do docente pelo sucesso ou fracasso do aluno, desconsiderando os limites do professor modificar as desigualdades educacionais e a precariedade das escolas. Trata-se de uma política de culpabilização.

Dessa forma, nós, professores, inspirados na música Bêbado e o equilibrista, de Aldir Blanc e João Bosco, estamos numa “dança na corda bamba de sombrinha”, isto é, agimos com resiliência ao conciliarmos tarefas de dar conta de várias escolas para lecionar, desafiar a indisciplina escolar e a desvalorização da docência. A política da meritocracia reforça a culpa do professor e vulnerabiliza ainda mais o reconhecimento profissional pelos segmentos da sociedade, uma vez que escalona e mensura, por meio de índices e metas, todo o conjunto de ações que compõem os saberes da sua profissão e a autonomia da gestão da sala de aula.

Existe alguma saída? Acredito que sempre há. O certo é que o docente não pode aceitar ser culpabilizado pelo fracasso escolar, que é um somatório de diversos fatores que não necessariamente estão relacionados ao trabalho do professor. Daí a importância dos professores se reunirem em torno de entidade docentes e classistas, e de se tornarem protagonistas de sua profissão frente aos processos de precarização e de desumanização do sistema de ensino. É um ato político manter-se na carreira do Magistério, que requer criação de redes e parcerias e, sobretudo, não duvidar que se é o profissional do saber.

(Sou a Giselli Avíncula, professora de Sociologia, mestra em Ciências Sociais e bacharelanda em Terapia Ocupacional. Hoje, atuo como agente de leitura. Alimento a teimosia da minha alma educadora, acredito na inteligência emocional e na potencialidade dos fazeres humanos para sensibilizar o potencial por conhecer.)

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