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COLUNA DA GISELE MAGALHÃES: Identidade racial não é mera questão de cor

Texto 13

Sempre odiei preencher o item “raça” presente nos mais variados questionários. Nunca entendi a ampla variedade do termo “pardo” e meu gosto e conhecimento em História me impediram de me simpatizar com o termo “mulata”. Para quem não sabe, esse termo deriva da palavra “mula” e é uma alusão ao animal que é montado, ou seja, uma lembrança recorrente da violência sexual praticada contra mulheres negras escravizadas. Jamais soube o que assinalar e, no auge da minha rebeldia, riscava a folha e acrescentava: brasileira.

A primeira lembrança que tenho sobre esse tema sou eu chorando e dizendo que meu cabelo não era duro quando cismavam de cantar aquela canção. Detalhe: meus cabelos são lisos devido à minha forte descendência indígena e esse fato me leva a outra frase recorrente em minha vida – Pelo menos, seu cabelo é bom. Apenas recentemente assumi a identidade racial negra, e isso foi algo que precisou ser construído por mim. Foram anos de inquietações e questionamentos que, enfim, encontraram uma razão quando me identifiquei na leitura do livro Na minha pele, de Lázaro Ramos.

Não nos ensinam a sermos negros. Embora seja lei desde 2003 (Lei no. 10.639), pouco se aprende sobre a história e cultura afro-brasileira nas escolas, quiçá sobre a cultura indígena, que teve sua obrigatoriedade acrescentada em 2008, pela Lei no. 11.645. O negro, quase sempre, é representado como o escravo que, depois de muito sofrimento, conseguiu o direito à liberdade. É praticamente uma coisa: o escravo. Parece simples, mas não é apenas uma questão de termo. Quando nos referirmos assim, da forma como sempre aprendemos, é como se tirássemos deles a humanidade. Não. Não são escravos! São seres humanos escravizados por outros seres humanos. É preciso falar da cultura afro-brasileira, sobretudo nas escolas, apresentar seus personagens históricos que vão muito além de Zumbi dos Palmares, passando, inclusive, por Machado de Assis, que teve sua imagem extremamente branqueada, e pelos primeiros jogadores negros de futebol, que eram obrigados a usar pó de arroz para parecerem mais claros! (Algo que ainda acontece, não necessariamente com o pó de arroz.)

Percebo todas essas questões também na sala de aula.

Tenho notado alunos negros, mas que não se identificam como tal e, muitas vezes, praticam bullying com outros alunos para se afirmarem menos negros. Essa onda de ódio me assusta e precisa ser combatida. O genocídio, não mais tão invisível da população negra e pobre tem vitimado, a cada 23 minutos, um jovem negro no Brasil (segundo uma CPI do senado divulgada em 2016). Percebo, na educação, ainda, o melhor caminho para reverter tal quadro. Faz-se necessário desmitificar a História que vem sendo estudada na maioria das escolas, assumir as agruras da escravidão e estudar a cultura afro-brasileira além desse triste capítulo, redescobrir os outros personagens negros, revisitar a África e recontar nossa História, a História do nosso povo, com todas as suas nuances, lados e características próprias.

(Sou a Gisele Magalhães. Mulher, negra, mãe, artista, produtora cultural e professora de Arte. Pertenço aos 0,1%, segundo o censo do MEC, de 2013, de professores da rede básica de ensino formados em Teatro e acredito na força dessa arte na formação do indivíduo e construção de sua autonomia.)

Referências

BRASIL, Lei no. 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que institui o ensino da História e cultura afro-brasileira e africana no currículo oficial da rede de ensino.

BRASIL, Lei no. 11.645, de 10 de março de 2008, que inclui no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena.

RAMOS, Lázaro. Na minha pele. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, 152 p.

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