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COLUNA DA GISELE MAGALHÃES: De volta à sala de aula

Texto 1

Pensei em começar nosso encontro discorrendo sobre minha formação acadêmica, porém o pensamento, muitas vezes, não segue uma regra e, sem saber ao certo a razão, comecei a lembrar porque cheguei até aqui.

Não sei dizer quando a criança que eu era, aquela que falava com todos, mesmo aqueles que não conhecia, se tornou uma adolescente tímida, de poucas palavras, que fazia as lições de casa no intervalo por temer o contato com os outros, mas lembro-me bem de quando esta adolescente recuperou sua voz. Quando se refugiou em uma brincadeira já conhecida, o faz de conta, e se tornou Lamarck no temido seminário de Biologia. Uma ideia desesperada aceita pela professora e por um grupo de alunos que se tornaram seus melhores amigos. A partir desse trabalho feito no 1º ano do Ensino Médio, o teatro não mais saiu de minha vida! Veio a formação técnica (Teatro Escola Macunaíma), a acadêmica (Universidade Federal de Ouro Preto) e, surpresa!, a docência na educação básica.

De volta à sala de aula, reencontrei-me com jovens, alguns tão tímidos quanto eu era, outros expressivos como eu queria ter sido, e ainda outros: agressivos, paqueradores, autoconfiantes etc. E a escola... ainda do mesmo jeito! Com seu quadro negro, que é verde, mesas e cadeiras enfileiradas, sinais ensurdecedores. Confesso que, por um curto período, permaneci estática, embora, por dentro, uma revolução silenciosa se iniciasse. Tudo à minha volta parecia gritar e eram tantas ideias, tantas possibilidades, que não soube por onde começar. Respirei e comecei a observar.

Cheguei devagar, devagarinho, observando meus colegas, meus alunos e os funcionários da escola, entre outros. Aos poucos, fui sendo devorada por todo um sistema e, quando percebi, estava cansada, estressada, me sentindo impotente, lecionando conteúdos nunca vistos em minha formação. Eu me redobrava em pesquisas noturnas para preparar aulas sobre algo desconhecido e, sem querer, negligenciei toda minha formação acadêmica e negava aos meus alunos todos esses anos de pesquisa e paixão.

Lecionar Arte em um país onde apenas uma pequena da população consome bens culturais é um grande desafio, pois é possível perceber tal estatística na sala de aula. De certa maneira, é como se o ensino de Arte continuasse proibido e restrito a uma pequena elite da sociedade. Embora sua inclusão obrigatória no currículo seja recente (1996), a Arte parece estar tão distante da maioria dos jovens que o primeiro desafio do arte-educador é transformar tal perspectiva, pois, sem isso, seus esforços na sala de aula pouco valem.

Segundo Censo realizado pelo MEC, em 2013, apenas 6% dos professores que lecionam Arte têm formação específica e 3% são formados em alguma linguagem artística (Artes Visuais, Artes Cênicas/Teatro, Dança e Música) – em Teatro (minha formação), apenas 0,1%, e, em algumas regiões, nem isso. Conversando com alguns colegas de faculdade, percebo que muitos, inclusive eu, por um tempo, abandonam o que foi aprendido em sua formação e condicionam suas aulas a um conteúdo prévio e apostilado. Não que isso não seja importante, mas é preciso lutar pelo espaço do teatro na Educação brasileira. Nossas dificuldades são básicas: o excesso de alunos (algo que prejudica todas as disciplinas) e, principalmente, a falta de um espaço adequado às aulas. Não precisamos de muito. Para começar, uma sala sem carteiras já seria de grande ajuda quando se propõe a trabalhar com a expressão corporal e o contato com o outro na construção de vivências significativas e, consequentemente, do fazer teatral. E, mais importante, precisamos resistir e não desistir da nossa linguagem. Somos cerca de 0,1% apenas, mas já somos. Avante! Arte educadores e todos que acreditam na Educação!

Referências:

FERRAZ, Maria H. C. de T.; FUSARI, Maria F. de R. Metodologia do ensino de Arte. São Paulo: Cortez Editora, 1999. 135 p.

INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA. Censo escolar da Educação Básica (2013). Brasília: INEP, 2014.

(Sou a Gisele Magalhães. Mulher, negra, mãe, artista, produtora cultural e professora de arte. Pertenço aos 0,1%, segundo o censo do MEC (2013), de professores da rede básica de ensino formados em Teatro e acredito na força dessa arte na formação do indivíduo e construção de sua autonomia.)

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