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COLUNA DA GISELE MAGALHÃES: Das incontáveis vezes em que fui salva por um professor

Texto 7

Houve aquela vez em que a professora na 4ª série propôs um trabalho com teatro. Formamos grupos e tínhamos que adaptar a história Festa no céu, escolhida mediante sorteio. Nem tanto pelo trabalho final, mas o que descobrimos no processo não tem preço! Naquela época, sem Google, cada trabalho exigia muito de cada um. Os encontros depois da aula, os ensaios, as discordâncias, os lanches que as mamães faziam questão de providenciar... Hoje, quando observo aquela preocupação em não se pedir trabalho em grupo porque “complicam” a vida do aluno, não há como não pensar em tantas vivências perdidas!

Quando estava na quinta série, hoje 6º ano, comecei a ler, por conta própria, o livro Brasil: nunca mais, e tive pesadelos quase todas as noites. Minha professora de História, ao saber o que me deixava tão sonolenta durante as aulas, começou a ficar comigo duas vezes por semana, depois da aula, para lemos juntas e enfrentarmos, dizia ela, mais uma vez, aquele pesadelo. Essa professora havia sentido na pele os horrores da ditadura militar que levou metade do seu dedo anelar, sem contar toda violência psicológica que não pode contar a uma garota de 11 anos.

Tive professores extremamente exigentes que questionavam minhas notas 8 e que me ensinaram a buscar sempre o meu melhor, que acreditaram mais em mim do que eu mesma.

No Ensino Médio e na faculdade, tive professores que, além de mestres, se tornaram grandes amigos. Houve um momento, durante a licenciatura, que cursei em outro Estado, em que a tristeza bateu tão forte que quase desisti de tudo. Busquei apoio psicológico, que acabou me empurrando para medicação e trancamento do curso e, mais uma vez, lá estava uma professora atenta que me incentivou a buscar atividade física, a lembrar os motivos que me levaram até ali... E foram tantas outras vezes! Impossível lembrar todas, mas sei que muito do que conquistei não foi sozinha e só tenho a agradecer a tantos mestres que passaram e ainda passam por minha vida. Alguns deles reencontrei agora como colegas de trabalho, outros estou conhecendo agora e já me ensinam tanto.

Nessa semana mesmo estive em uma palestra em que ouvi, de um professor russo de teatro especialista em Stanislavski e Demodov, que professores incríveis são aqueles que sabem que ainda não aprenderam tudo porque, no dia em que não aprenderem mais nada, terá chegado o seu funeral artístico.

Comecei a escrever esse texto quando, mexendo nos meus guardados, encontrei uma atividade minha com palavras afetuosas de uma professora e comecei a refleti sobre todas as vezes em que fui salva por um professor. Pensei em quantas vezes deixei de ter uma atitude como essa, que tanto me ajudou. É fácil mencionar as vezes em que consegui, mas e aquelas em que não me permiti, seja pela correria ou mesmo pelo cansaço? Muitas vezes, ganhamos ou perdemos nossos alunos com pequenas atitudes.

Referências:

ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO. Brasil: nunca mais. Petrópolis: Vozes, 1985. 312 p.

(Sou a Gisele Magalhães. Mulher, negra, mãe, artista, produtora cultural e professora de arte. Pertenço aos 0,1%, segundo o censo do MEC, de 2013, de professores da rede básica de ensino formados em Teatro e acredito na força dessa arte na formação do indivíduo e construção de sua autonomia.)

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