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COLUNA DA GISELE MAGALHÃES: Alunos com necessidades especiais: e agora?

Texto 2

Hoje, com a universalização do acesso à Educação, para que se cumpram as diretrizes da Educação para Todos, por força de lei, a matrícula é um direito conquistado, no entanto, as escolas ainda precisam se adequar física e humanamente para receber os estudantes público-alvo da educação especial (alunos PAEE).

Esses estudantes são, agora, uma realidade, é fato. Precisamos urgentemente preparar nossas escolas para recebê-los. Uma das maiores dificuldades encontradas quando falamos em política inclusiva, tanto do ponto de vista físico-estrutural quanto pedagógico, é o fato de se esperar a necessidade para que as adequações sejam pensadas, o que significa atraso em atender aquele estudante de forma adequada para suprir as suas dificuldades e necessidades.

Da mesma forma que a sociedade está aprendendo a lidar com pessoas com necessidades especiais, a escola também precisa aprender, mas, ao mesmo tempo, ela tem que ensinar e ser exemplo para jovens em formação. Quanta responsabilidade!

Os primeiros a sentir o peso dessa missão são os educadores, pois neles recai toda uma cobrança por formação, flexibilização de currículo e avaliação desses educandos.

Além da cobrança externa, institucional, também temos que lidar com cobranças pessoais, afinal, o professor quer ver seu aluno aprender e, muitas vezes, ele se sente despreparado para lidar com esses estudantes. Infelizmente, por medo de errar, aliado a outros fatores dos quais destaco o excesso de alunos em sala – onde leciono, no Ensino Fundamental II, temos turmas de até 38 alunos, e, no Ensino Médio, até 44 alunos –, muitos alunos têm sido ignorados e, mais uma vez, excluídos.

Nós, professores, estamos, no dia a dia, com vários jovens, e cada um representa todo um universo de possibilidades e sonhos que temos que desvendar e cativar em 50 minutos de hora/aula! Pela Lei no. 15.830, em vigor no Estado de São Paulo, desde o dia 15 de junho de 2015, uma sala com aluno PAEE deve ter, no máximo, 20 alunos... Alguém pode me citar ao menos uma escola brasileira pública que a cumpra? Pois, em oito anos trabalhando na Educação Básica, não sou capaz de mencionar nenhuma.

A escola tem recebido, de forma crescente, alunos com necessidades especiais e, nos últimos anos, pelo menos no Estado de São Paulo, várias salas de aula têm sido fechadas por falta de demanda. Pergunto: agora não seria o momento de respeitar esta lei? A lei existe, os alunos também e, agora, as salas. Então, o que falta?

Na construção de uma escola inclusiva avançamos pouco, mas precisamos continuar essa caminhada. A formação é importante sim, mas o que realmente transforma é o olhar do professor. É enxergar cada aluno na sua singularidade e, quanto ao aluno PAEE, precisamos reconhecer a conquista histórica que sua presença na sala de aula significa. É importante saber que às pessoas com deficiência era negado o direito à vida, que eram motivo de vergonha para muitas de suas famílias; que, depois, muitos passaram a ser enclausurados, e que, quando começaram a frequentar o ambiente escolar, eram depositados com outros alunos com dificuldades iguais ou mais intensas que as deles em horas ociosas que pouco acrescentavam.

Ter um aluno PAEE na sala de aula é, em si, uma oportunidade de trabalhar por uma educação para a diversidade e por uma sociedade mais justa, que aprenda a aceitar e a conviver com as diferenças ao invés de empurrá-las para debaixo do tapete. Alguns, assim como na música Imagine, de John Lennon, poderão dizer que sou uma sonhadora, mas, da mesma forma que ele cantou, digo que não sou a única e espero que, um dia, você, professor, se junte a nós e, nesse dia, o mundo será um só.

(Sou a Gisele Magalhães. Mulher, negra, mãe, artista, produtora cultural e professora de arte. Pertenço aos 0,1%, segundo o censo do MEC (2013), de professores da rede básica de ensino formados em Teatro e acredito na força dessa arte na formação do indivíduo e construção de sua autonomia.)

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