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COLUNA DA FERNANDA CLÍMACO: Entre fogo, tiro e sangue nas escolas

Texto 18

Estamos chegando ao fim de outubro e esse é um daqueles meses em que somos convidados a refletir sobre o Dia do Professor. Os mais otimistas consideram que estamos a um passo de conquistar a tão sonhada mudança na Educação e, por isso, vale a pena celebrar. Outros estão convencidos de que não há o melhorar. Como celebrar a data diante da ausência de políticas salariais e de formação continuada, com jornadas exaustivas, precárias condições de trabalho e violência?

Entre comemorações, flores, festas, brincadeiras, abraços e sorrisos, as mídias nos brindaram com o pânico dos recentes acontecimentos em Janaúba-MG e Goiânia-GO: fogo, tiros e sangue nas escolas. Foi difícil acompanhar tudo de forma imparcial. E, como muitos, acompanhei, incrédula, as tragédias que interromperam vidas de professores e de estudantes. Aos nossos olhos, escolas se transformaram num mundo em caos.

Horror é pensar que essa realidade acontece todos os dias. No chão das escolas, em meio a tiroteios, professores e crianças se protegem de balas perdidas, da violência urbana, do descaso político. Os que não morrem ficam com feridas abertas que levam tempo para secar. Vale mencionar o professor Fabiano Cachamorra, que tem relatado frequentemente, em seus textos publicados na rede Professores transformadores, experiências com a violência em escolas no Rio de Janeiro e que se tornaram referências para a minha reflexão sobre esses tempos sombrios.

Como é possível acontecer tanta violência nas escolas? Para mim, escolas são, essencialmente, um projeto humano, feito a muitas mãos: professores, estudantes, equipe e comunidade. Talvez por concebê-las como lugares de humanidades, onde estamos juntos e contribuindo no desenvolvimento de pessoas, sempre acreditei que escolas fossem instituições marcadas por certa imunidade social.

Para atos violentos nas escolas são muitas as hipóteses, explicações, suposições e teorias que os justificam. Como professora, também carrego opiniões a respeito e tenho pensado que, talvez, esse seja mesmo o tempo em que estamos vivendo o momento de romper com barreiras hipócritas de uma sociedade discriminatória e alienante que conduz a humanidade a atos insanos, e buscar sentidos para uma vida em comunidade. Acredito na educação para construir uma vida em sociedade com justiça social, condições dignas de educação e saúde e, como muitos professores, acordo todos os dias para trabalhar por isso.

Ataques em escolas representam, para mim, uma metáfora de fim do mundo. Rompe-se com a dignidade humana, com os direitos humanos, com a vida. Infelizmente, literalmente. Entendo que a violência na escola é um fenômeno complexo, não há como ignorar contextos sociais e psicológicos como causas, mas encontrar alternativas de ação dentro das escolas pode ser um caminho. Por isso, penso que temos que escutar àqueles que vivem e sofrem nas escolas. Pensar na violência dentro de uma perspectiva institucional nos oferece elementos para a enfrentarmos. Portanto, reitero: acredito que a escola é um projeto humano e, por isso, será sempre um empreendimento construído, cuidado e renovado a muitas mãos. Mãos que podem ajudar a erguer novos pilares que representam saberes e valores sociais, colaborativos, necessários ao pleno desenvolvimento humano. Mãos que precisam ser observadas, ouvidas, acolhidas.

Escola é lugar onde a vida recomeça a cada dia, a cada olhar, em cada ato. Vamos cuidar disso.

(Eu sou a Fernanda Clímaco, sou professora transformadora, mestre em Educação e pesquisadora da infância. Atualmente, trabalho com consultoria e formação de professores da Educação Infantil. Sou professora de professores e acredito que a gente pode mudar o mundo!)

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