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COLUNA DA ELÔ LEBOURG: Será que estou dando aulas direito?

Texto 84

Quando comecei a dar aulas para o Ensino Superior, senti muito entusiasmo diante da possibilidade de atuar com estudantes jovens e adultos. Imaginei, por isso, que os debates fluiriam e que poderíamos dedicar nossas aulas à análise e à discussão dos textos das disciplinas de forma um pouco mais aprofundada.

Que engano!

Logo nas primeiras aulas, notei que os estudantes não tendiam a se concentrar nas aulas expositivas, que nem sempre liam os textos propostos e que poucos participavam das discussões. Inicialmente, fiquei sem saber como agir, mas fui assumindo que precisava repensar minha prática, dessa vez no Ensino Superior.

Desde então, tenho feito a opção por aulas mais dinâmicas. Tento, dentro do que dou conta (porque também estou em formação e sou carente de bons exemplos nesse sentido), adotar uma postura mais construtivista e coerente com aquilo que defendemos como sendo uma prática pedagógica criativa. Por isso, procuro evitar aulas somente expositivas, preparo mais atividades em grupos, experimento práticas com mapas mentais, jogos teatrais, desenhos etc. Tem sido frequente, nas minhas aulas, que minha atuação se baseie em uma fala inicial e em outra de fechamento e que, ao longo delas, os estudantes percorram, por meio dos materiais que disponibilizo, os seus próprios caminhos.

Enquanto os alunos constroem suas respostas e aprendizados, sigo por perto. Vou aos grupos, escuto, opino, ajudo a sistematizar alguma informação. Em outros momentos, observo e vou tentando notar se as discussões estão acontecendo de forma produtiva.

Este exercício de adaptação a uma proposta didática que pode ser mais interessante aos meus alunos tem me dado muito trabalho. Minha formação, nem de longe, é suficiente para me ajudar a promover aulas mais atrativas, o que tem exigido de mim um esforço especial de pesquisa, criação e aprendizagem.

Mesmo assim, surgiu, em mim, um novo tipo de angústia. Será que estou dando aulas direito?, me pergunto frequentemente. É curioso isso, estou certa de que, como professora, o meu lugar não é (ou não deveria ser) o de detentora de um saber que os alunos ainda não têm. Também reconheço que uma educação de caráter mais construtivista requer que a produção de conhecimento seja protagonizada por todos, o que demanda que os estudantes atuem ainda mais em nossos encontros. E percebo que meus alunos não estão muito interessados nos modelos de aulas mais tradicionais que tento ministrar e que têm gostado dos nossos novos caminhos.

Mesmo considerando tudo isso, ainda não me libertei da ideia de que dar aulas exige a presença de um professor que ocupe a maior parte dos espaços, que fale muito, que determine cada aspecto do planejamento, que decodifique e explique tudo. Mas isso não é completamente ruim, devo admitir: a angústia acaba chegando para me lembrar que não estou mesmo pronta como professora, que preciso seguir experimentando, construindo, desconstruindo... E assumo que tudo isso não deixa de ser, mesmo que incomode, bonito. Sigo até hoje, mesmo depois de tantos tropeços, arriscando a me construir como uma professora implicada com sua prática.

(Eu sou a Elô Lebourg, idealizadora do Professores transformadores. Entre tantas coisas, sou historiadora e mestra em Educação. Sou uma professora transformadora também, dessas que acredita que vai mesmo melhorar o mundo.)

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