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COLUNA DA ELÔ LEBOURG: Quando o professor se cansa

Texto 81

Essa professora não dá prova, né? – A pergunta foi feita a uma colega por um aluno que quase nunca vai às minhas aulas. Ela respondeu que não e ele sorriu. Olhei de longe a cena e senti tristeza e cansaço...

Tenho percebido, nessa minha primeira experiência como professora do Ensino Superior, que muitos de meus alunos já se desconectaram de um “sentido” possível para sua formação, o de, por meio da Educação, contribuírem com a transformação social. Na graduação, muitos acabam seguindo um roteiro que envolve o mínimo de esforço possível, ainda que isso resulte numa construção de conhecimento rasa ou fragmentada.

Compreendo a opção (seria mesmo uma opção?). Noto que há um abismo entre a teoria discutida em sala de aula, no Ensino Superior, e o que meus alunos, futuros professores, vão encontrar nas salas de aula da Educação Básica. Falamos de inclusão, de respeito à diversidade, da necessidade de planejamento, da importância de uma educação democrática, mas, frequentemente, nem sempre praticamos isso durante nas universidades. A consequência é que muitos estudantes “entram na dança” e a faculdade acaba se transformando em uma série de obrigações a serem mais ou menos cumpridas.

Por outro lado, mesmo com o entendimento desse contexto, que é muito maior que eu e minha prática, tenho percebido, em mim, certo cansaço. Busco agir coerentemente em cada aula que ministro durante o curso. Preparo tudo o que me cabe cuidadosamente, considero as necessidades dos alunos, ouço suas sugestões, tento atribuir um sentido para cada etapa das disciplinas. E não me esqueço de que, além da minha disciplina, os estudantes estão matriculados em tantas outras, e que também têm seus outros compromissos e prioridades. Assim, tento trazer textos mais leves e mais curtos (sem prejuízo da formação teórica). Apresento um cronograma possível, explico minhas escolhas, não proponho avaliações individuais e sem consulta (o terror dos estudantes), evito que os finais de período sejam conturbados.

Atuar assim exige de mim um esforço e um engajamento enormes. Mesmo assim, tenho observado que muitos de meus alunos ainda não se deram conta do que estão fazendo ali, em nossa disciplina. É recorrente que me perguntem questões básicas sobre o curso já apresentado ainda hoje, mais de um mês depois que tivemos nossa primeira aula. É mais comum ainda que, em uma turma com mais de 40 alunos, somente uns cinco tenham lido o texto proposto para basear nossa discussão. Os comentários com informações de memes de Facebook costumam dominar o debate em sala de aula (não que isso seja completamente ruim, mas precisamos de referencial teórico em nossa formação). Isso cansa... Nessas horas, até compreendo os professores que, desmotivados, deixam de investir na sua prática em sala de aula...

Certamente, precisamos repensar a organização do ensino e da aprendizagem em sala de aula. É necessário reestruturar a formação escolar, da Educação Básica ao Ensino Superior. As aulas ou os momentos de formação precisam fazer sentido para todos. É preciso motivar um desejo de estudar, de aprender, de ensinar. Mas já temos professores que estão tentando melhorar, na medida do que cabe a eles, algumas “lógicas” de ensino, porém é preciso lembrar que eles só conseguirão se tiverem um pouco mais de envolvimento dos alunos. Uma transformação da educação só será mesmo possível se todos os principais sujeitos envolvidos se preparem melhor para ela. Fica o convite.

(Eu sou a Elô Lebourg, idealizadora do Professores transformadores. Entre tantas coisas, sou historiadora e mestra em Educação. Sou uma professora transformadora também, dessas que acredita que vai mesmo melhorar o mundo.)

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