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COLUNA DA ELÔ LEBOURG: Quando desisto

Texto 75

Naquele dia, depois que meu aluno arremessou uma pedra em minha direção e a coordenação pedagógica afirmou que isso era problema meu e que não iria lidar com o assunto, saí da escola com a certeza de que deixaria de ser professora. Nunca mais colocaria meus pés ali. Estava cansada, não aguentava mais, não valia a pena.

Senti muita raiva diante daquela situação. Raiva e medo. E se aquele rapaz tivesse me acertado? E se eu tivesse me machucado mais gravemente? Eu estava há quilômetros do hospital mais próximo! Como faria para receber socorro prontamente? Por que a escola não quis lidar com isso? Será que aqueles profissionais não acharam que aquele era um episódio grave? Por que, de novo, precisei lidar com a agressão de um aluno sozinha?

Mais tarde, quando cheguei à minha casa, desabei na cama. Passei horas ali, com os olhos fechados, inchados de tanto chorar. Cada parte do meu corpo estava dolorida pela tensão, pelo susto, pelos e se... Não sabia o que me doía mais: a imagem do rapaz arremessando a pedra ou o descaso da direção. No meio da confusão, só uma certeza: eu havia mesmo desistido de ser professora. Ia fazer qualquer coisa da vida, menos trabalhar como professora.

Só que voltei à escola na semana seguinte. E, em meu retorno, a primeira coisa que fiz foi sentar-me diante daquele aluno e conversar sobre o que havia acontecido. Falei com cuidado e de forma honesta a respeito de tudo o que a agressão dele tinha me causado. Ele me escutou em silêncio e parecia atento a toda humanidade que tentei demonstrar em minha fala. Contei da dor que ele havia me causado, de como fiquei triste e senti mal. Ele respirou fundo, me olhou nos olhos e, então, me pediu desculpas e me deu um abraço, mais forte do que eu esperava.

Depois disso, já desisti de ser professora outras vezes. Creio que não é fácil, para qualquer professor, manter-se engajado em uma atuação que, frequentemente, perde espaço para a desvalorização. No meu caso, o que pesa é a relação com os alunos e com a equipe escolar. Tudo pode ir mal, mas quando os alunos ou meus colegas se transformam em meus agressores diretos sinto forte desânimo e, a depender da situação, tendo a querer desistir.

Às vezes, em alguns desses episódios, minhas desistências provisórias até me fazem bem. Funcionam como uma oportunidade de repensar minha vida e, assim, acabo percebendo que não consigo encontrar muito sentido em uma atuação profissional longe da docência. Quando noto, da opção pela desistência já estou pensando em como criar estratégias para superar a dificuldade.

Com o tempo, reagindo aos primeiros problemas mais graves que fui encontrando em minha travessia como professora, fui passando a desistir menos e a resistir mais. E assim tem sido. Às vezes, minha profissão me traz dores terríveis e até desanimo de seguir adiante. Tenho aprendido a assumir essa necessidade de me preservar e, então, me aquieto e descanso um pouco. Quando vou me recuperando, retomo meu foco, reconheço que o caminho é mesmo árduo e sigo em frente.

(Eu sou a Elô Lebourg, idealizadora do Professores transformadores. Entre tantas coisas, sou historiadora e mestra em Educação. Sou uma professora transformadora também, dessas que acredita que vai mesmo melhorar o mundo.)

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