Return to site

COLUNA DA ELÔ LEBOURG: Professor também é gente

Texto 85

Cheguei na sala e os alunos, agitados como sempre, não me perceberam. Atravessei a sala andando rápido, deixei meus materiais sobre a mesa e avisei: Turma, vou fazer xixi rapidinho e já volto. Um silêncio. Alguns estudantes me encararam com ar de perplexidade. Enquanto ia para o banheiro, pensei no que havia acontecido ali. Que reação foi aquela, sobretudo numa turma tão barulhenta e que tinha uma dificuldade imensa para se acalmar no início das aulas?

Situações assim aconteceram outras vezes na minha carreira. Sempre que a minha dimensão humana ou física aparece um pouco mais na sala de aula, noto que alguns estudantes estranham. Às vezes, tenho a impressão de que meus alunos desconsideram que existo para além da sala de aula. É como se, a cada aula, eu me materializasse à frente deles e que só existisse em função da minha prática.

Assim como eles, eu tenho um corpo, adoeço, sinto dores e cansaço. Às vezes, estou mais agitada, menos concentrada, impaciente. E também há aqueles momentos em que estou contente demais, eufórica com as alegrias da vida. Tudo isso interfere na minha prática. E não estou certa se os meus alunos têm consciência disso.

Noto que, dos professores, é exigido que escutem todas as demandas dos alunos, que considerem sua cultura extraescolar, seus contextos de vida, suas subjetividades, seus corpos e histórias. Não importa quantos alunos um professor tenha, é comum que escute que precise dar conta de propor um atendimento individualizado para cada aluno. Mas e o contrário? Será que é possível começar a propor que as turmas considerem a humanidade dos professores?

Anos atrás, quando perdi minha avó, senti demais isso. Toda a escola soube da partida dela, porque faltei dois dias de aula. Voltei para escola ainda com olheiras de tanto chorar, visivelmente entristecida. Dentro do que era possível para mim, naquele momento, ministrei as aulas que me cabiam, mas, nem sabendo da minha dor, meus alunos se compadeceram um pouco. As turmas seguiram agitadas, ouvi piadas sobre meu semblante, não consegui trabalhar direito. Foi muito cruel viver aquilo, sobretudo depois de uma perda tão significativa.

Perceber o professor e seu esforço de fazer um bom trabalho é essencial para que a educação escolar se renove. Ir para a sala de aula não deveria causar a sensação de que estamos chegando num campo de batalhas onde somos o inimigo a ser combatido. Somos pessoas, sujeitos com desejos, medos, alegrias e tristezas. Isso não deveria assustar nossos alunos.

(Eu sou a Elô Lebourg, idealizadora do Professores transformadores. Entre tantas coisas, sou historiadora e mestra em Educação. Sou uma professora transformadora também, dessas que acredita que vai mesmo melhorar o mundo.)

All Posts
×

Almost done…

We just sent you an email. Please click the link in the email to confirm your subscription!

OKSubscriptions powered by Strikingly