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COLUNA DA ELÔ LEBOURG: O perigo de se tornar um professor instrutor

Texto 79

Um dos argumentos mais presentes entre alguns professores com os quais me relaciono é o de que eles se ressentem de fazer o trabalho que, a princípio, deveria caber aos pais de seus alunos. Há uma queixa constante relacionada à convivência com alunos “mal educados” e ao fato de que não deveria ser papel do professor ensinar um aluno sobre cortesia e polidez no convívio em sala de aula.

Não questiono o fato de que é desagradável e, por vezes, insuportável precisar lidar com alunos grosseiros e agressivos. Nenhum professor merece passar por isso. No entanto, precisamos pensar se esta cobrança das famílias faz mesmo sentido. A qual família temos nos referido quando falamos em seu papel de educar os filhos para que cheguem limpos, bem comportados à escola e facilitem nosso papel de “instrui-los” nos conteúdos que somos habilitados para ensinar?

Em minha experiência como professora, tenho sido capaz de perceber como as relações familiares colaboram no desenvolvimento dos meus alunos. Apesar disso, olhando um pouco mais de perto, notei que muitas dessas famílias não tinham condições favoráveis para colaborar efetivamente para a formação de sujeitos, digamos, “educados”. Na minha prática, bastava olhar para tudo aquilo e compreender determinadas reações e atitudes dos meus alunos em sala de aula. Assim, fui entendendo que, para que eles adotassem uma postura menos defensiva e mais amigável comigo, era necessário tempo e uma atitude coerente da minha parte, a profissional formada para estar ali (eles precisavam saber que eu não trazia comigo armadilhas, que não queria ser mais uma pessoa a prejudicá-los).

Reconheço que não cabe a mim, como professora, ser “mãe, enfermeira, assistente social e psicóloga dos meus alunos”, mas o meu papel vai além das relações de instrução. Eu não estou em sala de aula para, apenas, ensinar História (ou, atualmente, ensinar disciplinas da área da Educação). Estou ali para contribuir com a formação desses sujeitos, e isso vai muito além dos conteúdos ministrados. Muitas vezes, a minha prática se destina justamente a ensinar como todos ganhamos com a gentileza de um “bom dia” ou de um “obrigado”.

Recentemente, ao preparar uma aula sobre as demandas conservadoras impostas à formulação da Base Nacional Comum Curricular, debrucei-me um pouco mais sobre o movimento Escola sem Partido. Abominado por grande parte dos professores, que passam a conviver com a ameaça de serem denunciados e expostos por suas supostas atitudes doutrinadoras, o movimento prega uma atuação do professor restrita à instrução. De forma sintética, é bem isso: professor de Matemática dá aula de Matemática, não ensina a dar “bom dia” (de acordo com o movimento, isso é obrigação estrita das famílias) e não conversa sobre nenhum outro assunto sob pena de estar se tornando um doutrinador.

Veja a armadilha. Muitos docentes têm percebido o perigo de um movimento que se propõe a monitorar o trabalho do professor, e que tem atribuído a este toda responsabilidade pelo que vai mal na educação, mas estão compactuando (mesmo sem saber) com uma de suas principais premissas, a de que “famílias educam e professores ensinam”. Precisamos, urgentemente, rever essa ideia.

(Eu sou a Elô Lebourg, idealizadora do Professores transformadores. Entre tantas coisas, sou historiadora e mestra em Educação. Sou uma professora transformadora também, dessas que acredita que vai mesmo melhorar o mundo.)

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