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COLUNA DA ELÔ LEBOURG: Ninguém se importa com o professor

Texto 91

Na minha turma do Ensino Médio, todos os meus colegas adoravam um dos nossos professores. Ele era mais jovem que os demais, e considerado engraçado e bonito. Eu, no entanto, não o suportava, porque ele fazia piadas muito “duvidosas” sobre o comportamento feminino. Não tinha a menor paciência pra ele e sempre me mantive o mais distante possível.

Apesar disso, até hoje me lembro de uma ocasião em que esse professor chegou à nossa sala muito abatido. Entrou quieto, colocou seu material sobre a mesa, nos cumprimentou e avisou que estava sentindo dores fortes na cabeça e que, por isso, precisava que a aula fosse mais calma naquele dia. Nenhum dos meus colegas acolheu o pedido do professor: continuaram conversando alto, rindo às gargalhadas e arrastando as carteiras. A aula foi muito tumultuada. Eu olhava para o professor e me afligia pelo seu desamparo diante da dor que parecia sentir e por ter que trabalhar mesmo precisando de repouso. Foi a única vez em que dei conta de ter um sentimento mais empático por ele. Entendia que não precisava gostar dele para respeitar o seu pedido.

Infelizmente, algo similar aconteceu comigo dias atrás. Estava muito resfriada e com a garganta irritada, mas optei por não faltar ao trabalho. Ao longo daquele dia, percebi que estava um pouco febril e até considerei cancelar a aula da noite, mas tive receio dos meus alunos não serem comunicados a tempo e irem para a faculdade à toa. Por isso, encarei o compromisso e fui.

Assim como meu professor do Ensino Médio, logo no início da aula, informei aos meus alunos que não estava me sentindo bem e que precisava da consideração deles em relação ao meu estado físico. Pedi com “jeitinho”, mas não fui atendida: havia muita desatenção, conversas paralelas, barulho, estudantes rindo, outros usando aleatoriamente seus telefones. Mesmo doente, para ser ouvida e compreendida, eu falava alto e repetidamente. Logo, fui sentindo ainda mais mal-estar e uma vontade enorme de ir para casa descansar.

Pedi mais uma vez, com serenidade, que a turma colaborasse comigo. Não adiantou e, então, perdi a paciência. Falei mais alto, num tom sério, e alterei meu semblante. Só assim consegui quebrar aquele ciclo de desatenção e ruído. O restante da aula transcorreu de forma mais suave, mas reconheço que isso não aconteceu em função dos estudantes terem percebido meu corpo adoecido e assentido com meu pedido inicial. A mudança de comportamento veio porque me impus de forma enérgica e opressora.

Naquela noite, mesmo adoecida, fui trabalhar porque tive cuidado com meus alunos. Pensei neles quando optei por enfrentar mais uma saída de casa. Por que será que eles não foram capazes de respeitar o meu pedido? Será que não perceberam que eu estava mesmo precisando da colaboração de todos para que a nossa aula acontecesse num ritmo em que eu desse conta de trabalhar mais confortavelmente? Ou será que não se importaram comigo? O que leva os estudantes a ignorarem os pedidos de ajuda de seus professores?

Ainda pertencemos a uma cultura que acredita que os sacrifícios se confundem com a forma como nos comprometemos com o nosso trabalho. Colocamos o emprego em primeiro plano e não respeitamos nosso corpo, nosso adoecimento, nossa necessidade de cuidado. Na docência, uma profissão que envolve uma interação complexa com o outro, nas situações nas quais nossa fragilidade não é acolhida, isso pesa de uma forma absurdamente ruim. E a desvalorização do professor também passa por aí: pela falta de empatia com ele, com seu corpo e com suas tentativas de fazer um trabalho bem-feito, mesmo que esteja adoecido.

(Eu sou a Elô Lebourg, idealizadora da rede Professores transformadores. Entre tantas coisas, sou graduada em História e mestra em Educação. Sou uma professora transformadora também, dessas que acredita que vai mesmo melhorar o mundo.)

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