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COLUNA DA ELÔ LEBOURG: Eu sou uma só

Texto 88

Certamente, adoecer faz parte da nossa condição humana, mas tenho observado que nós, professores, estamos cada vez mais esgotados. Comigo tem sido assim há anos. Sobretudo em fins de semestre ou de ano letivo, tenho ficado doente...

A rotina de um professor envolve o planejamento das aulas, as aulas ministradas, a correção de atividades. Há, ainda, reuniões pedagógicas, as relações com as famílias, os enfrentamentos de estudantes ou turmas mais “problemáticos”. Para alguns professores, além disso, é preciso pensar no desenvolvimento de projetos e na coordenação de atividades extracurriculares. Para todos, a necessidade de formação continuada acompanha cada passo da rotina. Pós-graduação, mestrado, doutorado, congressos, publicação de artigos, cursos complementares: para ressignificar nossa prática, precisamos assumir que nossa formação é constante, e isso dá muito trabalho.

Assim, a rotina de um professor envolve a formação do outro e a sua própria formação. Tudo isso dentro de um sistema, geralmente, sucateado, que não oferece uma boa estrutura para que o trabalho ocorra adequadamente. Não é fácil. Se associarmos a isso as outras dimensões da vida de um professor (corpo, família, casa, relações), é possível entender o quanto nossa rotina é complicada.

A minha é. Desde que me formei professora, há 15 anos, a docência é uma prática que, muitas vezes, me massacra. Ao longo da minha trajetória profissional, em diversos períodos, estive distante da sala de aula presencial, porque precisava reorganizar meus sentimentos e minha relação com a docência. Por vezes, pensei que nunca mais voltaria a ser professora porque entendia que não dava conta de assumir, com responsabilidade, todas as demandas necessárias para ser o que considero como uma “boa” profissional.

Somente com o tempo fui entendendo que “eu sou uma só” e que, uma vez que minha atuação se dá em uma área profissional pouco valorizada pela sociedade, eu poderia deixar de me responsabilizar exclusivamente pelo que não funcionava no meu dia a dia como professora. Entendi que nem sempre poderia exercer minha profissão em uma condição ideal, esperada e transformadora. Tenho me absolvido, então, dessa culpa. E tenho tentado organizar melhor a minha rotina para que as exigências da minha profissão não me esgotem tão completamente.

Sigo me formando, estudando, repensando minha prática, planejando aulas que considerem os desejos e as necessidades dos meus alunos. Mas tenho buscado me divertir mais, descansar aos finais de semana, tirar férias “de verdade”. Cuido melhor da minha saúde, me alimento bem, não me permito mais dar aulas com fome ou com sede. Faço cursos em áreas que não necessariamente se relacionam com minha profissão. Estou em movimento, mas desacelerando um pouco.

Temos falado de humanizar nosso olhar em relação aos professores e isso é curioso: professores são seres humanos, mas é como se isso não fosse óbvio para todos. É importante que a prática dos professores seja percebida considerando sua dimensão humana, seus limites e a necessidade de que se compreenda que um trabalho docente só será bem-sucedido se o professor, como profissional, for valorizado. Enquanto isso ainda não acontece, creio que cabe a nós, professores, irmos encontrando nosso próprio ritmo e respeitando-o.

(Eu sou a Elô Lebourg, idealizadora da rede Professores transformadores. Entre tantas coisas, sou graduada em História e mestra em Educação. Sou uma professora transformadora também, dessas que acredita que vai mesmo melhorar o mundo.)

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