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COLUNA DA ELÔ LEBOURG: Enternecer-se

Texto 83

Observo meus alunos de longe. Dedicam-se à realização de uma atividade que propus para a aula do dia. Em um grupo, uma das alunas lê em voz alta uma parte do texto. No outro, uma delas escreve em seu caderno enquanto a colega pesquisa algo em seu smartphone. Na parte de trás da sala, as estudantes de outro grupo riem por um momento. A sala está barulhenta, alguns se desconcentram pontualmente, mas todos estão envolvidos com a prática.

Quando proponho alguma atividade para os meus alunos, geralmente, vou até eles para contribuir com a discussão e para conhecer as estratégias que criaram para sua resolução. Gosto dessas situações, de caminhar pela sala e de conseguir conversar mais de perto com todos. Mas há momentos em que me afasto e aproveito para ficar reparando no jeito de cada um. A estudante que mexe nos cabelos enquanto lê, o rapaz que sempre faz uma piadinha. A moça tímida, com olhos desconfiados, sempre em silêncio, mas atenta a tudo. A colega extrovertida, que fala alto e que ri, de vez em quando, olhando para mim.

Fico dali, de um canto da sala, percebendo os estudantes envolvidos em suas próprias dinâmicas e em seus processos de ensino e aprendizagem, cada um à sua maneira. E me descubro imaginando suas histórias – as tantas que ainda não conheço e que, provavelmente, nunca conhecerei –, pensando em suas vidas além da nossa sala de aula... Olho para eles e não consigo evitar um sorriso. Sinto uma ternura imensa em momentos assim.

Tenho bons sentimentos em relação ao meu trabalho, mas a ternura é algo que me acompanha de forma especial desde minhas primeiras experiências como professora – uma sensação que senti poucas vezes em outros trabalhos. Até hoje, passados alguns anos desde que me tornei professora, sigo achando tão bonito observar meus alunos realizando uma atividade, indo a uma aula prática ou, simplesmente, comparecendo às nossas aulas. A percepção de que estamos ali, juntos, trabalhando pela formação de cada um deles, é valiosa para mim. Frequentemente, essa sensação de enternecimento me invade de uma maneira que parece me salvar de toda angústia provocada pela parcela de desvalorização que encontro em meu trabalho. Cada vez mais tenho entendido que, sem ternura, eu não daria mesmo conta de ser professora.

(Eu sou a Elô Lebourg, idealizadora do Professores transformadores. Entre tantas coisas, sou historiadora e mestra em Educação. Sou uma professora transformadora também, dessas que acredita que vai mesmo melhorar o mundo.)

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