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COLUNA DA ELÔ LEBOURG: Adoecimento discente

Texto 82

Enxaqueca. Diarreia. Bronquite. Úlcera. Sinusite. Alergias de pele. Labirintite. Depressão. Síndrome do pânico. Colite. Asma. Vermelhidão nos olhos. Insônia. Perda de peso. Vômito. Pneumonia. Fadiga. Ansiedade. Queda de cabelo. Falta de ar. Prisão de ventre. Nos últimos dois meses, desde que o novo semestre foi iniciado na universidade, estas foram algumas das justificativas de faltas dos meus alunos às nossas aulas.

De doenças pontuais às crônicas e mais graves, passando por quadros de sofrimento psíquico, tenho observado que muitos dos meus alunos estão doentes. E sou capaz de apostar que a dinâmica complexa do Ensino Superior tem contribuído bastante para o adoecimento desses jovens. Alguns deles têm sofrido tanto que passaram a precisar de medicação forte e controlada para ajudar a combater os sintomas provocados pelo excesso de compromissos, pela dificuldade em organizar o tempo e de lidar com todos os problemas e desafios que a vivência universitária tem trazido. Em função desses quadros, muitos desses estudantes têm sido reprovados por frequência ou por baixo rendimento. Há, ainda, aqueles que trancam os períodos ou que abandonam a faculdade, desistem de seus sonhos porque não suportam a pressão cotidiana.

A frequência com a qual me deparo com esses casos de estudantes adoecidos tem me assustado, mas me lançado um alerta: sobretudo na área de formação de professores, onde atuo, temos nos afastado de uma prática coerente com muitos dos princípios que valorizamos (e acreditamos ensinar). As dinâmicas escolares, não só no Ensino Superior mas também na Educação Básica, parecem estar invisibilizando o adoecimento dos estudantes. Frequentemente, o sofrimento físico ou psíquico dos estudantes tem sido percebido apenas como uma fraqueza específica do sujeito. Ainda não temos nos dedicado suficientemente a refletir sobre a causa de tanto adoecimento e sobre como esses estudantes necessitam ser acolhidos, para que se curem ou para que fiquem menos doentes.

Eu, professora, do lugar que ocupo nas vidas dos meus alunos, observo e acolho. Sempre que possível, tenho me oferecido para conversar, para escutar alguns desabafos, para lamentar a dor que eles estão experimentando, e para mostrar que não estão sozinhos. Nessas situações, o que tenho encontrado são relatos de pessoas entristecidas, sem perspectivas de um futuro profissional que corresponda ao investimento e ao desgaste vividos – meus alunos também estão cheios de medo.

A falta de sentido de um cotidiano desgastante tem feito estes estudantes sofrerem física e psicologicamente. Enquanto a universidade não repensa o seu lugar e os seus métodos, creio que nós, professores, precisamos procurar outras possibilidades. Um currículo que se aproxime do sentido que os estudantes buscam em sua formação, avaliações e didáticas menos ameaçadoras, um cotidiano que humanize as relações, em que todos sejam ouvidos e considerados importantes. Um ótimo começo, que poderia resultar em estudantes menos doentes, amedrontados e tristes. Um sinal de que a educação que estamos praticando se torne, um dia, realmente amorosa e transformadora.

(Eu sou a Elô Lebourg, idealizadora do Professores transformadores. Entre tantas coisas, sou historiadora e mestra em Educação. Sou uma professora transformadora também, dessas que acredita que vai mesmo melhorar o mundo.)

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