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COLUNA DA CRISTIENE CARVALHO: Eu, você e o bullying

Texto 18

Professor, eu, você e nossos alunos precisamos falar sobre bullying. Sei que essa ação de violência física e psicológica acontece em diversas esferas da sociedade, mas não podemos negar que a escola, como instituição de educação e socialização, pode ser um local privilegiado para tentarmos impedir a reprodução dessa violência.

A primeira coisa que noto é a necessidade de compreender os tipos de violência presentes nas ações denominadas bullying. Como aluna e professora, vivi casos em que as agressões tinham cunho racista, homofóbico, lesbofóbico, gordofóbico, misógino, misândrico, capacitista, de classe social, entre outros... Aquele visto como diferente do padrão estabelecido por um grupo opressor era vítima de piadas, agressões, exclusões e linchamentos sociais frequentes.

Como aluna, sofri algumas dessas agressões e consegui superar meus medos diante das situações de violência ao canalizar minha atenção nas artes e nos esportes. Funcionou para mim, mas sei que essa não é uma fórmula, devido a um somatório de fatores que podem agravar ainda mais a situação, como, por exemplo, a presença cada vez mais massiva do bullying no ambiente virtual e os elementos familiares, sociais e psicológicos envolvidos.

Em uma das experiências em que sofri bullying como aluna, discuti com os colegas de classe sobre o conteúdo ofensivo das piadas reproduzidas contra mim. O professor passava a matéria no quadro e só interrompeu as piadas para pedir silêncio e, no afã de manter a ordem, me colocou para fora da classe. Nenhuma palavra foi dita sobre o assunto… Nenhum apoio sobre o ato ocorrido... Foi ali que comecei a enxergar alguns professores como cúmplices do bullying e passei a carregar a ideia fixa de que estavam todos contra mim…

Como professora, sempre temi este lugar de cúmplice do bullying. Compreendo que o conhecimento só tem sentido se conseguimos transformar o mundo. Dessa forma, nunca quis silenciar as vítimas para seguir com a matéria. Muitas vezes era necessário parar a aula e questionar o que foi dito, o que causava uma situação de incômodo, debate e reflexão sobre as posturas. Na maioria das vezes, o “conteúdo” da matéria ficava em segundo plano, pois eu via que era necessário falar e agir contra algo que corroía os alunos dia a dia.

Atualmente, vejo que é cada vez maior o número de professores preocupados em olhar para o bullying a partir da dimensão da formação humana. Para isso, destaco a importância de superarmos a discussão apenas dentro de projetos específicos, com data de início e fim, e desenvolvermos ações cotidianas de enfrentamento que sejam ancoradas nos elementos concretos presentes na realidade dos alunos, a fim de construirmos um ato educativo que respeite a diversidade como processo de construção social.

Abr@ço forte e sigamos construindo uma educação humana!

(Eu sou Cristiene Carvalho, arte educadora, pedagoga, mestre e doutoranda em Educação. Compreendo a Educação enquanto possibilidade de transformação do mundo. Em minha prática, oscilo entre a indignação diante das injustiças e a boniteza de acreditar nos sonhos (im)possíveis.)

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