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COLUNA DA CRISTIENE CARVALHO: Avaliação como forma de humanização da educação

Texto 15

Quando pensamos na avaliação das nossas ações como educadores, sabemos da importância de verificar o alcance das metas estabelecidas por meio de parâmetros quantitativos. Porém, desde o início de minha trajetória como professora, sempre questionei o uso exclusivo de dados quantitativos para o processo de análise das ações educativas. Pensar em números de alunos atendidos, taxas de evasão, dados de aproveitamento etc. nos dá um panorama geral da dimensão de nosso trabalho, mas sempre fiquei instigada a investigar a humanidade por trás dos números.

O primeiro passo para humanizar a avaliação, em minha ação como educadora, foi tentar me aproximar do canal de comunicação dos sujeitos. Há alguns anos, ao trabalhar com jovens entre 14 e 18 anos, notei que a tecnologia permitia uma abertura ao diálogo, e propus que criássemos um debate em uma rede virtual chamada Orkut. Naquele espaço, cada aluno poderia escrever depoimentos sobre o seu processo de envolvimento com a escola e com a disciplina. Ali, os jovens contavam histórias que me permitiram compreender elementos, como: atrasos, desconcentrações, conflitos e tensões presentes em sala de aula. Essa experiência virtual trouxe um novo olhar para minha avaliação real e me colocou diante dos alunos em um contexto mais amplo.

Prossegui trilhando pela docência e percebendo a escuta como um processo intrínseco para a compreensão dos diversos tipos de público. Há alguns dias, precisei avaliar o alcance das ações educativas realizadas com adultos no centro cultural em que trabalho, e percebi que os dados dos questionários e das fichas de frequência institucionais não me permitiriam compreender os motivos da evasão crescente do grupo. Dessa forma, propus uma roda de conversa para ouvir, escutar e avaliar. Seria um momento para que cada pessoa falasse livremente de seu envolvimento com a oficina e das reverberações, expectativas e frustrações. Confesso que, no início, foi difícil sair do discurso tudo está indo muito bem e não é necessário mudar. Aos poucos, a conversa foi se desenrolando e escutei histórias que me permitiram perceber que a evasão acontecia simplesmente pela proposta de ensino não contemplar anseios do grupo, como, por exemplo, a necessidade de aprender coisas para obter renda, já que grande parte dos participantes buscava formação para o trabalho.

Tanto o registro virtual dos depoimentos como a proposta de roda de conversa exigiram de mim uma escuta sensível, que me desafiou a sistematizar informações sobre a humanidade dos sujeitos e analisá-las em diálogo com dados quantitativos. De posse de histórias dos sujeitos é possível ver que as estatísticas se articulam a uma vida real e concreta. Transpor essa escuta dos sujeitos para a transformação da minha ação docente tem sido um desafio que venho tentando superar constantemente como professora.

Abr@ço forte e sigamos procurando humanizar nossa docência!

(Eu sou Cristiene Carvalho, arte educadora, pedagoga, mestre e doutoranda em Educação. Compreendo a Educação enquanto possibilidade de transformação do mundo. Em minha prática, oscilo entre a indignação diante das injustiças e a boniteza de acreditar nos sonhos (im)possíveis.)

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